A Troca


*SPOILERS A BAIXO*

Enquanto aguardo os lançamentos de janeiro/2019 fico a ronda de filmes novos (ainda não vistos), e de repente encontro esta bela obra de arte encenada por Angelina Jolie, John Malkovich e dirigido por Clint Eastwood.
A história se trata de um caso baseado em fatos reais, em resumo: Christine Collins (Angelina Jolie) vive junto com o filho, Walter Collins (Gattlin Griffith). Em um fatídico dia Walter desaparece sem deixar rastros, a partir disso Christine informa a polícia e é iniciada uma busca pelo menino.
Passado meses a policia informa que encontrou o garoto, no momento do reencontro Christine vê que aquele não é seu filho, agora ela terá que provar que Walter continua desaparecido enquanto fica com uma criança desconhecida em sua casa.


O desaparecimento de Walter não demora a acontecer no filme, na verdade após os primeiros 20 min o garoto já esta desaparecido, assim ocasionando na pouquíssima aparição do ator mirim. A atuação de Angelina não podia estar mais fantástica, desempenhando o papel de uma mãe desesperada e querendo ser ouvida, Angelina conseguiu dar profundidade e sentimento a Christine Collins.
Por ser um filme de drama com um toque de suspense essas cargas emocionais são muito importantes, pois são elas que movem a história. Não irei citar roteiro pois como é baseado em uma história real não há como ter furos nele, apenas irei parabenizar Clint Eastwood pelo trabalho e dedicação incrível que teve com este filme. Eastwood ficou mais de 1 ano pesquisando sobre este caso (pegando arquivos antigos, fichas criminais, dados históricos da época, ...), a reprodução esta mais fiel possível, por conta disso o filme agrega também valor histórico.
Christine estava sozinha, estavam fazendo-a acreditar
que estava louca
Acho que a maior sacada do filme foi a maneira que Christine era tratada e injustiçada, nós (telespectadores) vemos todas as ações desde Christine até o faxineiro da delegacia de polícia, nos colocando em uma posição acima de todos, sabemos de tudo, menos do motivo do desaparecimento do menino (que depois descobrimos ser Gordon Northcott o responsável, o mesmo raptava e matava jovens junto de seu sobrinho Sanford Clark, que era obrigado a acatar as ordens do tio)
E com esse sentimento de injustiça que o filme nos passa o sentimento de raiva. Nós sabemos desde o inicio que a polícia não havia realmente achado Walter Collins, que aquela criança era apenas um "contratado" deles para a polícia não ficar mal falada frente a imprensa, que nos anos 20 tinha uma gigantesca influência na população, entendemos tudo logo no começo para termos a sensação que Christine tinha, de ninguém a ouvir (A criança "achada" pela polícia era Arthur Hutchins, uma criança que fugiu de sua família, concordou em ajudar a polícia fingido ser Walter em troca de conhecer a Califórnia e seu ator preferido, Tom Mix).
Tirando os principais os outros atores/atrizes também são ótimos, mas em destaque novamente gostaria de citar as crianças que participaram, que atuação fantástica, todo o misto de sentimentos, medo, agonia, tudo ali encenado por atores mirins, um ótimo elenco.
O figurino retrata muito os anos 20, o formal-social em seu auge- a tradição de tirar o paletó ao se sentar e colocar o chapéu no cabideiro são pequenas coisas que nos remetem a época, e que fazem o filme ficar imersivo, mais um ótimo trabalho de Eastwood com sua equipe.
Outra coisa que gostaria de pontuar, em alguns momentos o filme tem deixas muito interessantes, um exemplo: Enquanto o sobrinho de Gordon Northcott, Sanford Clark relata ao detetive Lester as atrocidades do tio, o detetive que estava ouvindo saca e começa a fumar um cigarro, em dado momento do relato Sanford diz se lembrar das machadadas que o tio dava para decepar os meninos raptados, eles fizeram esta associação do machado com as cinzas do cigarro de Lester, que chocado com o que estava ouvindo para de fumar e deixa as cinzas caírem no chão. São essas pequenas coisas que fazem o filme uma obra completa.
Sanford Clark confessando os atos do tio para o detetive Lester Ybarra
(Michael Kelly)
Agora saindo um pouco do filme e falando sobre o caso real, que grande mãe que temos nessa história.
Uma mãe que no primeiro minuto que percebeu que seu filho estava desaparecido já fazia de tudo para encontra-lo. Christine foi silenciada, tentaram influência-la, afasta-la e interna-la, e mesmo depois de tudo isso ainda seguia firme tendo a certeza que seu filho ainda estava desaparecido. Uma das cenas que isso fica mais enigmático é quando Christine é internada em um hospital psiquiátrico a mando do capitão de policia J. J. Jones (Jeffrey Donovan), após alguns dias em meio aquela loucura o médico (claramente ligado com os policiais) diz que Christine pode sair, porém com a condição de assinar um termo dizendo que a criança que a polícia trouxe a ela é realmente seu filho e desmentir as coisas que disse sobre a policia e associados, Christine não só recusou como amassou o papel.
Os crimes do galinheiro de Wineville foram um destaque por toda a América por conta de Christine.
A verdadeira Christine Collins
Gordon Northcott foi acusado de matar e estuprar jovens garotos em sua fazenda (no filme retiraram a parte dos estupros, é citado que o mesmo os matava e fazia tortura psicológica). Após 27 dias Gordon foi sentenciado a 2 anos de prisão que, após o cumprimento da pena iria para a sentença de morte por enforcamento (alguns relatos dizem que sua mãe, Sarah Louise Northcott também teve envolvimento nos assassinatos e que a mesma também foi julgada em tribunal, porem no filme isso não é documentado).
O caso de Christine não só conseguiu salvar as crianças como também mudou toda América, tirando o poder extremo dos oficiais de justiça e tirando de seus cargos aqueles que a injustiçaram, mostrando a corrupção dentro da própria polícia.
O filme termina com alguns relatos do que aconteceu nos anos seguintes, aparentemente depois de um tempo os mesmos oficiais que foram afastados retornaram a seus postos e que Christine em nenhum momento de sua vida desistiu de achar seu filho, Walter Collins.
Walter nunca foi achado, durante o julgamento de Gordon o mesmo assumiu ter matado o filho de Christine, porém desmentiu depois, fazendo assim para alguns o caso continuar um mistério até hoje. Walter não foi mais procurado pela polícia já que foi dado como assassinado por Gordon Northcott.
No filme é possível ver uma cena em que Walter escapa junto com outros meninos da fazenda, essa cena é documentada por um desses meninos que escapou, porém se separou dos outros e só voltou para casa depois de 5 anos, fazendo com que Christine ficasse esperançosa com a volta do filho.

Christine no tribunal durante o julgamento de Gordon Nothcott

Conclusões:
Documentários, biografias e filmes baseados em fatos reais são os mais difíceis de se analisar. Como este filme é baseado em fatos não podemos julgar: roteiro, personagens, acontecimentos e desfecho.
É um ótimo filme para se assistir, hoje (04/01/2019) ele ainda esta no catálogo da Netflix, então é uma ótima oportunidade de se assistir um dos maiores casos dos EUA no sistema de streaming.
O filme é agonizante em certos momentos, com altos climas de tensão do meio para o final. A escolha de Angelina se encaixou perfeitamente no papel.
Tenho apenas uma ressalva que seria sobre o final, como Christine nunca achou o filho tiverem que fazer uma criação para a história ter fim, achei o final criado bem Hollywoodiano (frase de efeito), mas isso é gosto pessoal, não tira em nada o mérito do filme ser uma obra de arte.

Nota: 9,8


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